Categoria: Contos e crônicas

Das coisas que não fiz quando podia

28 de maio de 2020 | Contos e crônicas

Observar memórias: eis o que mais faço. Percebo cada nuance, cada tom de um acontecimento de algum momento passado. Meus pensamentos são como uma parede branca. O cérebro é o projetor. Toda condução elétrica dessa massa gelatinosa é destinada às imagens que são apresentadas naquele concreto interno. E assisto, todos os dias, o filme de todas as tardes.

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Segunda-feira

25 de maio de 2020 | Contos e crônicas

Se não fossem as luzes, tampouco saberia que era dia. Acordou sobrecarregado. A casa estava de cabeça para baixo, sem organização alguma. Nem os livros, que eram religiosamente separados por autor, respeitando regras próprias, estavam no lugar. A sala era inóspita: parecia um depósito depois de uma tempestade. Ninguém sabia o que estava acontecendo por ali.

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Fotografia

21 de junho de 2019 | Contos e crônicas

A cidade é grande, mas cabe em um retângulo. Na vertical ou horizontal, uma lente circular aponta para um objeto ou paisagem. Às vezes, é uma pessoa. Seja lá o que for, apesar de paralisada, a imagem traz uma história. Tudo não passa de uma narrativa. É algo que se conta com um click, e o receptor interpreta com os olhos. Apenas isso: olhos que enxergam variações de luz. Nada mais.

Estes mesmos olhos absorvem, com a luz refletida do papel ou tela que estão diante deles, imagens de uma cidade que um dia foi. Isto porque elas nunca retratam o presente; e, nem na imaginação, o futuro. É sempre uma cena de outrora, congelada em um retângulo ou quadrado. Claro, podem estar em um círculo ou um losango. A forma pouca importa, desde que exista o conteúdo.

O Rio é uma cidade imensa, e ela cabe nesses espaços. Cabe porque é um corpo vivo. O corpo, sem movimento, corre, transcorre. Desaba em caos e alegria; desvela em felicidade e tristeza. É fruto de tragédias e encantos. Carrega o carnaval; felicidade. Carrega os deslizamentos; desolação. Carrega mil histórias, carrega uma existência inteira. É uma cidade.

Lentamente, aproximo-me do objeto, da cena. Depois de localizá-lo, giro o disco da câmera lentamente. Tento domar o tracinho verde que mostra se há luz demais ou de menos. Giro para a esquerda, ele quer mais. Giro para a direita, ele quer menos. Encontro o equilíbrio. Clico uma, duas, três vezes. Capturei uma ou duas histórias. Sou testemunha ocular de um acontecimento.

Corro na alegria de descarregar o cartão de memória ou revelar os fotogramas. Não há dificuldade em química ou computação que oculte esta emoção. Ver uma cidade encapsulada em um retângulo ou quadrado, da forma que eu escolher, com um traço da realidade que escolhi eternizar. Um momento único que poucos podem desfrutar.

De taça em taça, escolho as melhores e trato-as com carinho e cuidado. São como crianças partindo para a maioridade. São vozes, que espalhar-se-ão entre os olhos, entre as mentes, entre as paredes e bits e bytes. Sem som, sem palavra, elas contam histórias. Mas interrompem o vácuo. Interrompem o silêncio. Elas falam de mais. São fotografias, são espetáculos de uma grande cidade.