Das dificuldades que tenho para falar sobre o Rio

É um tanto triste, mas eu confesso que há um problema enorme para eu elogiar o Rio, como fazia antigamente. Me ocorreu esta preocupação, de novo, na segunda-feira, quando comecei a escrever um texto sobre a Tijuca. Para falar a verdade, foram duas percepções. Em primeiro lugar, fazia tempo que eu não andava pelas ruas e sentia-me bem e com um certo prazer de estar ali. Em segundo, o fato de isto me inspirar, novamente. Afinal de contas, se tem algo mais poético no mundo, depois da natureza, vem as cidades. Quando este senso adormeceu, fiquei louco.

Comecei a ter esses problemas por volta de 2014, quando completou um ano em que eu e um amigo decidimos explorar o que não conhecíamos por aqui. Tínhamos uma lista bem bacana, que só trazia pontos da Zona Sul, mas rapidamente fomos vendo que não se limitava somente àquilo. Na verdade, havia um certo medo entre nós de explorar pontos que era tabu, ainda mais com os meus pais falando dos perigos. Mesmo assim, andamos, caminhamos, e felizmente, hoje, faço de Santa Cruz à Niterói sem problema algum, por conhecer e saber das particularidades dessa cidade.

Só que não apenas de flores vivem os jardins. Nessa caminhada, enfrentamos alguns problemas, em especial, envolvendo mobilidade. Morador do Méier, meu amigo se locomovia quase que sem problema algum da Zona Norte para a Sul. Mas, e eu? O desânimo batia pesado na hora de voltar para casa. Sabia que precisava pegar o metrô até a Tijuca, e de lá, mais um ônibus, que se não levava uma hora para chegar em casa, perdia trinta minutos no ponto. Sem prova de dúvidas, chegou um momento em que comecei a pensar duas vezes antes de fazer as caminhadas de domingo, até desistir de vez.

E não parou por aí, porque a situação foi piorando. De uma tarde em que marquei de me encontrar com outro amigo no Leblon, ver um assalto na porta do shopping, depois de 2h em um engarrafamento da Alvorada até lá, foi um tanto aterrorizante, pois quase mataram a mulher. Quando me mudei para a Tijuca, foi a realização de um sonho, em especial quando eu estava bem perto do meu lugar preferido de lá, a Afonso Pena. Mas tive apenas um ano de alívio, até estar saindo de casa, às 19h, e um motoqueiro me parar no outro lado da rua, pedindo o meu celular. Depois disso, aconteceram outras vezes, e a desconfiança só foi subindo.

Talvez a violência do Rio tenha me assustado, e eu, que sempre tive medo, só piorou. E era bem estranho, pois, onde moro, até pouco tempo atrás, olvidava-se da violência. Hoje, tenho um conhecido que quase morreu de tanto apanhar – e pior, não foi longe da minha casa. Se não isso, continua o serviço precário dos transportes públicos, que apenas ganhou uma maquiagem de 2013 para cá. Quer dizer, como ter prazer na própria cidade, sabendo disso tudo?

Há dois anos atrás, comecei a escrever um poema e larguei, com um trecho que diz o seguinte, se não me falha a memória:

As ruas do Rio
Seguem belas como tal
Perdendo todo o seu charme
Para os ninhos de cobra no seu matagal

Relembrando das palavras, consigo entender melhor o que queria dizer: temor. Era quase um grito de socorro, de quem estava observando as coisas acontecerem. Pois eu percebi que o Rio não era e nem é belo. É algo romantizado, e que antes é todo focado na Zona Sul, que à altura, era maquiada; um lugar elitista. Hoje, as mazelas do Rio, em especial, a desigualdade, que sempre foi o seu maior problema, estão amostra a qualquer um. E não há como escapar, senão ao aeroporto ou colocando a mão na massa. O problema é: como?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *