Segunda-feira

Publicado em 25 de maio de 2020, às 12:00 | Contos e crônicas

Se não fossem as luzes, tampouco saberia que era dia. Acordou sobrecarregado. A casa estava de cabeça para baixo, sem organização alguma. Nem os livros, que eram religiosamente separados por autor, respeitando regras próprias, estavam no lugar. A sala era inóspita: parecia um depósito depois de uma tempestade. Ninguém sabia o que estava acontecendo por ali.

Esta era a visão perfeita do caos. Ou seria, se não fosse o jornal. Caminhava pela casa com aquele roupão surrado, cheio de manchas de água sanitária. A caneca, já rachada e implorando pela aposentadoria, acompanhava na mão direita. O tom amarelado denunciava os anos. A fumaça era do café requentado. Feito há dois dias. Porque não havia mais pó.

Rapidamente, sentou-se em um banquinho, localizado próximo à porta da varanda. Tentou contemplar a paisagem, mas paisagem não havia ali. Eram prédios e mais prédios, com uma velha senhora observando, de longe, a vida alheia. Vez ou outra, rolavam alguns insultos entre os moradores dos edifícios. Os gritos faziam parte da rotina. Quase como a orquestra do Titanic.

Agora era a vez do rádio. Mas que rádio, se não haviam pilhas? Na verdade, sequer sabia da existência delas. Estavam perdidas em algum canto. Possivelmente, estavam sendo utilizadas até para marcar páginas. Ou, simplesmente, não existiam. Poderia ser tudo fruto de um delírio coletivo, porque loucura nesse nível não se sustenta em somente um neurônio.

No meio da confusão, buscou um cantinho. Pegou um pão na chapa e vestiu uma camisa para ocultar o verdadeiro look pós-roupão: Havaianas no pé e cueca samba-canção. Jogou o cabelo para trás e ligou o computador, distraindo-se com o nada, enquanto a reunião corria solta. Diversos projetos, muitas ideias. Possibilidade de conclusão? Zero.

É como muitos dizem por aí: “esta é a nova rotina”. E sequer estamos na terça-feira.

Rio de Janeiro, 20 de maio de 2020

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