Escatológico

Publicado em 27 de maio de 2020, às 12:00 | Dia a dia

Nunca ouvi tanto a palavra “escatológico” como nesses últimos dias. Também, vá lá: há necessidade. Os vídeos da reunião ministerial de 22 de abril carregam tantos termos pejorativos, que deveria ser reproduzido com uma tarja “Não recomendável para menores de 18 anos”. Ou, talvez, para qualquer pessoa com a mente sã.

Se as imagens causaram impavidez ao país, a mim, o efeito é similar. Explico: não precisei de dez minutos de reprodução para sentir enjoo. Tive náuseas, embora já imaginasse o teor. Meus amigos têm razão: não há nada de novo ali. Já sabíamos que ”modos” não habitam aquele ambiente. O problema é que nunca tivemos o desprazer de assistir a uma demonstração gratuita, e em rede (inter)nacional.

Agora, as imagens que não são passado, ecoam no horizonte do Brasil que há pela frente. Mas insistimos: escatológico. Pois os termos não apenas se limitaram ao uso grosseiro de palavras. Pedir a “hemorroida”, só para citar um exemplo, não causou apenas danos aos ouvidos. Os efeitos, sem lastros, atingiram o país como todo, e podemos vê-los com o número de mortes causadas pela COVID-19, que não para de crescer.

É escatológico, também, por dar vida ao que, desde as eleições, se denuncia. E, hoje, se torna mais escatológico pelo uso indevido de instituições que deveriam nos proteger, mas nesta terça-feira (26), podem ter sido utilizadas para atacar o rival. Há até quem brinque: Jestapo, a Gestapo do Jair.

E é escatológico por inúmeros outros motivos, aos quais não me cabe recordar. A história, espero, irá cobrar. Mas, por enquanto, estamos enquadrados em uma realidade escatológica onde o desamparo político é norma do Brasil atual. Pois as políticas públicas, se não são ignoradas, desaparecem em um cenário ocupado por incertezas. Enquanto isso, palavrões: puta que pariu, mas que merda! E fim.

Rio de Janeiro, 26 de maio de 2020

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