Das coisas que não fiz quando podia

Publicado em 28 de maio de 2020, às 12:00 | Contos e crônicas

Observar memórias: eis o que mais faço. Percebo cada nuance, cada tom de um acontecimento de algum momento passado. Meus pensamentos são como uma parede branca. O cérebro é o projetor. Toda condução elétrica dessa massa gelatinosa é destinada às imagens que são apresentadas naquele concreto interno. E assisto, todos os dias, o filme de todas as tardes.

O bloquinho sempre paira no colo. Ao lado, uma caneta. Anoto conclusões de fatos que já foram concluídos. Porém, a dúvida persiste. “E se?”, pergunto toda hora. E se eu tivesse saído de casa mais cedo, naquele dia? E se eu não tivesse voltado de viagem, como planejado? E o mais importante: e se eu não tivesse insistido?

As memórias evocam um passado que já virou presente. Ecoam, em todas as dimensões dessa caixa óssea, vozes de uma pessoa que um dia fez tudo isso acontecer. E o arrependimento bate: o clã de indagações cresce. “Por que eu não fiz isso?”, me pergunto. Por que eu não disse quando era para dizer? Por que eu não brinquei mais? E o mais importante: por que eu fui embora?

Devagar, as coisas começam a se fixar no corpo. Já não fica mais na cabeça; se espalha pelo sistema nervoso, e o pulmão sente na pele. Infla em uma velocidade assustadora, mas não retém ar. Enquanto isso, o agrupamento de questões ganha algumas certezas: “era melhor eu ter feito algo”, afirmo. Era melhor eu ter deixado aquela história para lá. Era melhor eu ter levado o lixo para fora. E o mais importante: era melhor eu ter te escutado.

Toda a reflexão é interrompida pelos lanterninhas. Alertam: a sessão vai acabar. Depois, avisam: “Terminou”. Sem consolo, levanto-me daquela cadeira e sigo em rumo a outros cantos, em busca das coisas que não fiz quando podia.

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2020

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