Cansaço

Publicado em 29 de maio de 2020, às 12:00 | Dia a dia

O cansaço virou ordem. Antes, era preciso atravessar alguns dias da semana para declarar-se cansado. Na pandemia, é tudo diferente. Já na própria segunda-feira há reclamações. O fim de semana, que antes era destinado ao descanso, ganhou uma prerrogativa para fazer o que não foi feito durante a semana. Em alguns casos, há até quem use a folga para continuar no batente.

O cansaço, porém, não se limita a quem trabalha. Conversando com conhecidos desempregados ou sem afazeres devido às paralizações de atividades acadêmicas em algumas instituições, descubro que se cansam por fazer nada. O ato de ficar parado tornou-se fonte de cansaço. E não há o que e quem mude isso.

O cansaço pode ser considerado como o status da pandemia? Possivelmente. Veja: não falamos somente de cansaço físico. É físico e mental. Às vezes, pior ainda: somente mental. Pois, mesmo parados, o cérebro continua caminhando. E até mesmo os mais adeptos das práticas budistas e quem vive meditando relata a mesma coisa.

O cansaço é o que, então? Uma pergunta que não cala. E pensar nela, aliás, cansa. Assim como qualquer outra ideia, mergulhar em sua profundidade cansa. É como se fôssemos filósofos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Nossa mente, embora no automático, ganhou um novo dom: refletir sobre o tudo, mas ao mesmo tempo, o nada.

O cansaço é a causa de aforismos, portanto. Cansamos por tanto pensar, cansamos por tanto não-pensar. É uma ação e não-ação. Afinal, nossa existência está condicionada à bits e bytes. E se até computadores esquentam e suas baterias terminam, nosso corpo entra na mesma lógica. A ação cognitiva é, afinal, um processo estressante.

O cansaço é o que somos, é o nosso status quo. É o que somos, é o que vivemos. Pelo menos, enquanto tudo isso durar.

Rio de Janeiro, 28 de maio de 2020

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