Diário da quarentena: dia 4

Publicado em 20 de março de 2020, às 11:30 | Dia a dia

Vamos ao quarto dia. São quatro dias evitando sair de casa. Mas não fiquei dentro dela durante todos esses agrupamentos de vinte e quatro horas. Na terça, precisei ir ao banco. Questão de urgência. Não queria. Mas era necessário.

E é justamente sobre ambientes que quero falar. Pois a casa não é mais simplesmente uma casa. Seu significado descolou-se do significante. Mais do que nunca, a casa se tornou um ato político. Precisamos ficar dentro dela. Este é o nosso dever cívico. E devemos cumpri-lo.

Só que esta é uma visão muito reducionista, ainda mais quando a virtualidade nos é empregada como forma de obrigação em todos os instantes – especialmente para quem produz. Então, o que seria a casa, diante desse contexto de internet e redes sociais? A casa já seria como as plataformas onde vivem os seres humanos, em Matrix, para alimentar a máquina? Ou um refúgio para que nossa existência seja mantida, apesar do espaço e tempo? A observar.

Flusser ressalta que vivemos na pós-história. E esta nova forma de existência, ainda que temporária, me faz acreditar ainda mais em seu argumento. Afinal, de uma semana para outra, as imagens técnicas se tornaram a nossa maior (ou principal) representação no mundo. Nos comunicamos e nos servimos integralmente dessa forma, seja na esfera pública ou privada. O computador é, de fato, uma extensão de nossos órgãos – pelo menos, por ora.

De que forma, portanto, nos servimos dessa narrativa? Ou melhor: de que forma podemos nutrir dessa existência? Nossos corpos foram suspensos temporariamente. Não podemos levá-los à ágora. Somos o que somos sem ser o que somos. Estamos existindo em uma esfera digital, somente.

A distinção entre o real e o virtual tornou-se fluida, ao menos por um instante. A materialidade pouco importa, no momento. Pois o corpo segue no instinto de sobrevivência para dar à mente o que ela precisa para funcionar ao se isolar de tudo e todos. Nos conectamos e estamos conectados, exceto quando vamos dormir. É assim que passamos a existir em face aos acontecimentos do mundo.

A existência das cidades também sofreu alterações. Saíram os órgãos de Sennett e entraram as mídias técnicas, de Kittler. Todo o fluxo de comunicação tornou-se ainda mais virtual. Ainda que dependentes de estruturas físicas – de novo, obrigado, Flusser.

Cada modem é uma casa. Cada IP representa um agrupamento familiar. Os cabos são as ruas. O backbone é um bairro. O servidor DNS é o entroncamento das vias. A fibra ótica é a estrada. Os cabos submarinos e transmissões de satélites são portos e aeroportos.

Em que mundo viveremos durante esse período, portanto? Não chegamos ao platônico, mas nos aproximamos de uma realidade cibernética retratada por perfis, onde a extimidade sobrepõe a intimidade. Pois, por determinações médicas, até o convivência dentro das casas precisa de cautela e distância.

Concluo que, por ora, estamos sós ou não existimos. Ou pelo menos até que uma mídia técnica esteja diante nós ou em nossas mãos.

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