Diário da quarentena: dia 3

Publicado em 19 de março de 2020, às 11:30 | Dia a dia

Ser forte. Esse é o desejo mais profundo do mundo. Porém, mais que alcançar uma força capaz de me colocar para cima e nutrir um otimismo ímpar, eu só queria ter poderes mágicos. Com um estalar de dedos, mudaria tudo. Assim como nos filmes. Só que isso não é possível.

Esta é a sensação que me acomete no terceiro dia. Se ontem eu buscava uma nova interpretação dos fatos, especialmente de um jeito positivo, hoje, me entrego ao desespero. E ele chega rasgando a pele.

De presto, me lembrei bastante de dois livros enquanto eu encarava os devaneios da mente. O primeiro deles é Ensaio sobre a cegueira. Bem simples: o ser humano está mostrando suas vísceras e o que é capaz de fazer quando se sente ameaçado. Basta ver o desespero para estocar álcool em gel e comida. Sem dúvidas, há bastante espaço para a obra de Saramago aqui, ao realizar essa análise.

O segundo é A Peste, e é nele que me centro. E não só pela similaridade em si que Camus traz para com a realidade atual. Mas voltar para a sua escrita brilhante e genial me faz pensar sobre as escolhas que devemos tomar, ainda que sejam decisões amargas. Afinal, se é pelo bem da pólis, é para o bem de todos.

O problema é que os ratos já se tornaram fatos desimportantes. É momento de combater micro-organismos, pois, como bombas nucleares, eles podem causar uma devastação tamanha. E nós não sabemos o que fazer, só como nós esconder. Mas até que ponto conseguimos aguentar tudo isso?

São tempos difíceis, e reconhecer isso é importante. A anormalidade está posta, e é com ela que precisamos conviver. E não há nada de errado nisso. Muito pelo contrário: compreender a realidade é necessário para que as medidas surtam os efeitos esperados. É somente dessa forma que conseguiremos pôr as “medidas amargas” em ação com o devido auxílio.

Não vivemos em uma República platônica onde todos devem seguir o seu papel na sociedade à risca e com o peso da lei. Contudo, isso não é necessário para compreender a nossa missão global da atualidade, que é mitigar o avanço da doença.

Se Bernard Rieux venceu o mistério dos ratos, nós podemos vencer o vírus. E mais importante: podemos, também, aprender com o presente para que ele vire passado, e não futuro. Afinal, o risco nunca vai embora.

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