Diário da quarentena: dia 2

Publicado em 18 de março de 2020, às 11:30 | Dia a dia

Ontem foi o meu segundo dia de isolamento social. Nessa leva, acompanho milhões de pessoas ao evitar espaços públicos e aglomerações. Tudo em nome de um objetivo comum e importante: conter o avanço da Covid-19 (coronavírus) no Brasil.

Fico satisfeito em contribuir de alguma forma nessa luta, e não posso esconder isso. Mas o ato nobre e voluntário* não deve negar a realidade. É, sim, um momento delicado. Encaramos uma pandemia sem escalas. A cada dia que passa, o número de casos aumenta vigorosamente no Brasil e no mundo. Ontem, a doença teve a sua primeira vítima no país. Precisamos estar atentos, pois o risco está logo ali.

E é por isso que eu estou escrevendo sobre o assunto. A compreensão não é simples. Pelo contrário: é mais difícil do que imaginávamos. Só de pensar nisso, fico confuso.

Mas ainda consigo apontar algumas observações. Nisso, gostaria de discutir duas coisas.

A primeira delas tem a ver com todo esse apelo de coletividade que está circulando pelo mundo. Afinal, o próprio fato de ficar em casa, por mais duro que seja, já é pensar no próximo. O isolamento é justamente uma medida para evitar o contágio e manter os sistemas de saúde operacionais. Ou seja, precisamos cuidar uns dos outros para que todos fiquem bem – inclusive nós mesmos.

O segundo ponto tem a ver com o isolamento em si. Isto porque, de um dia para o outro, as autoridades nos pediram o que até então era um absurdo, senão inimaginável. A aderência, porém, é indiscutível para boa parte da sociedade, ao ponto das frases mais ditas na semana sempre citarem o trecho “não saia de casa”.

Todo esse cenário também dá espaço para algumas outras reflexões. Em primeiro lugar, observo não somente um apelo comunitário, mas social. A sociedade está se mobilizando para um bem comum, independente de crença ou ideologia. O foco da população está centrado na saúde pública e no bem-estar de todos. Essa é a preocupação e a pauta do momento.

A mudança de hábitos vem em seguida. E não é preciso muito rodeio para explicar. De repente, toda nossa rotina precisou ser redesenhada. E tudo isso chega, novamente, para alcançar um bem comum, que é a saúde da população.

Acredito que estes sejam os pontos-chaves para compreender o modus operandi da população global dessas últimas semanas**. É como um italiano em quarentena há quase um mês me disse ontem, em tom de desalento: “Nós tivemos que mudar as nossas vidas e elas realmente mudaram”.

E talvez para sempre.

*Optei por utilizar o termo “voluntário”, pois a quarentena ainda não é obrigatória no Brasil. Além disso, há uma boa parcela da população carioca que não está aderindo às recomendações do Ministério da Saúde, apesar dos apelos e decretos.

**Há muito o que ser levado em consideração. Mas procurei evitar as notícias ruins nesse primeiro momento.

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