Lula foi preso… e agora?

Machado de Assis é, sem dúvidas, o meu autor preferido. E, sempre quando penso em política, diretamente me vem duas histórias dele. A primeira é de quando o pai de Brás Cubas cisma que o filho precisa ir para a política, ao retornar dos estudos. A segunda vai para o livro “O Alienista”, quando, na confusão gerada por Simão Bacamarte, o barbeiro se presta como líder político daquela gandaia toda. A maior parte dos detalhes deixo para o livro, já que não quero dar spoiler acidental.

Ainda assim, posso dar uma palhinha. Justamente porque não deu para não se lembrar disso, ontem, durante o julgamento do ex-presidente Lula. A figura do barbeiro não foi apontada – será? –, mas os protestos trouxeram algumas relações. Com exceção da loucura de quem provocou a revolta, para muitos, a visão das personas Sérgio Moro e o Judiciário deve ter sido as mesmas que a população de Itaguaí teve para Simão Bacamarte – um médico que interna todo mundo compulsoriamente para tratar supostas psicoses – e à clínica, demonstrando extrema oposição. Não à toa, havia gente para tudo quanto era lado, em forma de protesto, e as lideranças não faltaram – muito menos as intenções eleitorais.

Porém, quando vamos para a realidade, percebemos uma tristeza enorme. O que aconteceu, ontem, na verdade, foi um perfeito show de horrores. Embora a ação da Justiça tenha sido positiva e vista com excelência pela população – esta extremamente prejudicada pelos atos do petista e aliados –, e, para os mais entendidos do juridiquês, houve decisões técnicas e bem aprimoradas, o fato a ser julgado é um desgaste enorme à história e à democracia brasileira. Afinal de contas, temos um político que, durante toda a sua carreira, apresentou-se como íntegro e ético. Foi ser eleito como presidente pela primeira vez para, em 2005, explodir uma crise que afetaria diretamente a base do seu governo. Hoje, ele é visto como um dos inimigos número um para uma parcela da população. O que é o Lula, agora, afinal?

Deixando esta questão de lado, já que não quero entrar no mérito, eu quero propor um exercício, tanto para mim quanto para as demais pessoas, para se perguntar: o que acontecerá a partir de agora, e o que queremos para o Brasil? Pois não devemos ser ingênuos. Não é prendendo Lula que teremos o fim da corrupção, tampouco, caíra um pó mágico do céu, solucionando tudo. Não. Esta foi apenas uma das etapas de recuperação. Há, ainda, muitas estruturas contaminadas por estes vírus. Resta-nos descobrir quais e procurar maneiras para eliminá-los e trazer o nosso país aos trilhos o quanto antes.

Pois não há mais tempo e nem espaço para frases como “O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas” e “Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral”* fazerem a síntese do nosso panorama nacional. Devemos nos levantar e aproveitar os movimentos que estão surgindo, atualmente, e mudar essa realidade. Porque não são apenas atitudes como as de ontem que irão resolver, e, sim, atos e exemplos, além de demandas, que deem força ao motor da mudança. Só assim construiremos o país que tanto precisamos e queremos, sobretudo, sem barbeiros e Simões Bacamarte para servirem como pedregulhos no caminho.

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